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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Carta aberta para Marcela Tagliaferri

Querida Marcela,

exilei-me. De mim mesmo. Foi necessário. Precisei abandonar meu corpo, minha cabeça, meu espírito para, com o distanciamento, refletir sobre o mundo. Sobre a literatura. Sobre meu eu diante de mim mesmo. Homem de poucas certezas, hoje tenho uma nova: sou completamente outro após a leitura de Exílio. E asseguro que um homem melhor do que era antes de lê-lo. E te agradeço muito por isso. A leitura de uma obra-prima faz isso com a gente. Rediscute, problematiza, abala. Estou abalado. Agora, enquanto escrevo, recordo-me de que nosso amigo Leonardo Davino, ao nos apresentar, disse-me que este seu romance me seria útil porque, ao contrário do que previu Benjamin, passava uma sabedoria a seus leitores. Lembro-me que fiquei curiosíssimo, mas, cético, atribuí o entusiasmo de Leonardo a puro galanteio. Mais uma vez eu estava errado.
A dedicatória que você escreveu para mim é datada do dia 9 de agosto de 2012. Mais de um ano seu romance esperou por mim na prateleira, ou melhor, era eu a esperar por ele sem saber o que perdia. Nesse tempo, nosso relacionamento se estreitou e hoje sinto um orgulho imenso de ser amigo de escritora de tamanho quilate. 
Vou te confessar uma coisa, Marcela. Aliás, relembrá-la, pois você já se dispôs a comentar um texto meu "com responsabilidade", lembra? Sempre tive veleidades literárias. Ambiciono um dia, quem sabe, ser um escritor. Lendo seu livro, porém, tomei consciência de quão pequena é minha "literatura". Pobre. Reles. Previsível. Acadêmica. Ainda tenho muito o que estudar, muito o que suar, muito a praticar. Confortei-me ao me dar conta de que posso aprender com os grandes. Posso aprender com você. 
Exilado. Mas não como Vicente. Nem Sílvia. Muito menos Fernando. Afastei-me por livre e espontânea vontade. Para desaturdir-me. A cada página de meus caminhos e descaminhos, afligia-me com a guinada que minha pesquisa daria. Preocupado, dentre outras coisas, com o narrador do século XXI e suas singularidades, como justificá-lo após a leitura de Exílio? Como classificar o seu narrador? Seu livro demandaria uma tese, isso para discutir apenas esse ponto - e que não é o único.
Enquanto angustiava-me com minha pesquisa, tive um lampejo de sanidade e percebi o quanto estava sendo egoísta e mesquinho. Sentimentos incongruentes diante de uma obra de arte. Então relaxei e me entreguei ao puro deleite, sem preocupações acadêmicas, tolas. Talvez o tipo de escrita que me resta. Uma vez, o Eduardo Losso disse que a teoria é para os fracos. Resigno-me. Posso ao menos fingir escrever algo de relevante.
É claro que venho falando sobre o narrador porque este é um de meus assuntos nos próximos quatro anos. Não o seu. Seu romance não é uma obra-prima apenas porque despertou em mim uma atenção peculiar e, a priori, insolúvel. E naturalmente não há um narrador. Você os pluraliza brilhantemente. Personifica-os. Subjetiviza-os. Brilhantismo também notório no diálogo, a meu ver, com o ciúme doentio de Bentinho e a "dissimulação" de Sílvia. Mas neste caso ela não se assemelha a Capitu, mas sim a uma trama de Nelson Rodrigues, também em minha humilde opinião. O desejo incestuoso de seu pai reacionário e cruel é digno de uma peça do fanático dramaturgo tricolor. Como você, não? 
Marcela, sem nenhum favor te digo que a construção do enredo, tendo como base nossa história política recente, os anos de chumbo da ditadura militar, entremeando a tortura nos porões com a realidade infelizmente comum de nossos pacientes psiquiátricos, é brilhante. Com muito prazer, vemos a transformação da "ficção na mais perfeita das realidades". É com esse recurso que você cria sua ficção a partir da iniquidade de poucas décadas atrás. E com o mesmo estratagema Vicente é levado à loucura; Sílvia igualmente, em certo sentido. Seu romance é a prova cabal e inconteste da força da ficção. De sua beleza. Sua magnitude. Em contrapartida, revela a fragilidade da realidade.
Ainda teria muito a dizer sobre seu livro, mas paro por aqui. Em tempos de correio eletrônico, opto por lhe escrever um carta, ainda que em um blog. Paradoxos desse nosso tempo. Mas se assim o faço é porque não me senti capaz de resenhá-lo, ou melhor, nenhuma resenha daria conta do que seu livro é. Além do mais, há bastante tempo uma leitura não me abala dessa forma, por isso julguei mais oportuno falar de leitor para autora, publicamente, pois se favor há, é que faço aos possíveis leitores desta carta, que devem correr para ler seu

2 comentários:

  1. Um pertinente texto para um grande livro!

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  2. Olá, Bruno!

    Parabenizo pelo excelente informativo poético. Seus blogs são por demais extasiantes. Também escrevo. Gostaria que você desse uma lida (conhecesse!) nos meus escritos. Sua verve me cativou. Salve, poeta!

    Abraços,

    José Lima Dias Júnior, historiador, professor.
    http://www.entreopoemaeapoesia.blogspot.com.br/

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