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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A morte do autor

Barthes, há muito, já decretara a morte do autor. E foi à luz do pensamento estruturalista e formalista que eu compreendia a literatura, desde os tempos do colégio. Ainda de calça curta, ouvia os professores me explicarem que narrador e autor são categorias diferentes, que não devem ser confundidos. Não ficava bem para um aluno antenado, como eu, cometer o equívoco de atribuir ao autor a voz do narrador. Com isso em mente ingressei no curso de Letras (português/literaturas), na UFF, em meados da década de 90. Durante toda a minha graduação, ignorei solenemente qualquer referência autobiográfica que pudesse tentar ajudar a leitura da obra, afinal o autor estava morto, deveria ser ignorado. Uma literatura que se quisesse séria, com algum rigor estético, não se resvalaria em autobiografismos.
Essa minha convicção me acompanhou, tardiamente, confesso, até o ano de 2007, quando comecei a fazer um curso de especialização em literatura brasileira, na UERJ. Nesta ocasião, percebi que já não era mais possível ignorar a figura autoral no texto literário; ao contrário, a literatura contemporânea mesclava, no ambiente ficcional, referências autobiográficas e ficção. Para se compreender a produção contemporânea, era necessário perceber de que forma o autor se autoficcionalizava, como sua vida empírica recebia um tratamento ficcional, por que razão era usual, dentre os escritores contemporâneos, uma linha tênue entre realidade e ficção. Estive às voltas com essas questões durante o curso em 2007 e nos dois anos seguintes, agora já no curso de mestrado em literatura brasileira, também na UERJ.
Defendida a dissertação, pretendia seguir a pesquisa, agora no doutorado. Ainda havia questões a serem respondidas e que não encontraram espaço nos dois anos de prazo do mestrado. Para o doutorado em literatura comparada, os blogs pareciam oferecer um ótimo corpus para me ajudar a entender a presença autoral nos textos literários. Semelhantemente às crônicas, os blogs trazem um eu que se confessa diariamente, mas sem permitir ao leitor saber ao certo se deve ou não confiar no que lê. Trata-se de um relato autobiográfico? É ficção tão somente? Na realidade, esse tipo de questionamento já não tem mais muita importância, mas sim saber onde reside a motivação para essa nova escrita do eu. E quais são suas peculiaridades.
A fim de me ambientar a essa nova forma de escritura, criei o meu próprio blog com a finalidade de registrar minha vida acadêmico-literária. Se eu iria pesquisar a autoficção nos blogs, nada mais natural que eu também tivesse o meu. Apesar de ter escrito um projeto para trabalhar com os diários virtuais, nunca fui um leitor muito entusista dos blogs, por isso precisava achar uma forma de ficar mais virtual, mais próximo e mais íntimo do meu objeto de estudo. Uma faceta autoral se expunha neste blog; o autor não podia mais estar morto.
Ano passado tentei pela primeira vez o concurso do doutorado, mas fui reprovado na prova de língua instrumental. Depois de ter o projeto aprovado, de ter ido bem na entrevista, consegui a proeza de não passar na prova de inglês. What? É, eu não passei na prova de inglês. Bom, não tive escolha a não ser tentar novamente este ano, mas optei fazer espanhol por via das dúvidas. Nunca estudei espanhol na vida, mas a proximidade com o português me deu a confiança necessária para arriscar. E novamente me dei mal. Não estou apto para ler nem em inglês nem em espanhol. Só tenho uma segunda língua - francês -, insuficiente para quem visa o doutorado.
Como este blog existia para registrar minhas atividades acadêmico-literárias e como estas atividades foram suspensas, volto à minha compreensão inicial de literatura e decreto novamente a morte do autor. Morre aqui este blogueiro e renasce um leitor despreocupado com questões teóricas e filosóficas. Por um lado me sinto aliviado, pois recuperarei uma relação prazerosa e lúdica com a literatura, sem a necessidade academicista por trás da leitura. Enfim, é isso, me despeço de vocês - o autor está morto.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mais um aniversário. Dia de me dar folga, fazer todas as minhas vontades e, naturalmente, ganhar presentes. Foram muitos e muito legais, mas nenhum se compara ao que o meu irmão me deu - História completa do Brasileirão, do Roberto Assaf. Meu irmão é conhecido pelos super presentes que sempre me dá, mas dessa vez se superou. Não acreditei, fiquei fascinado com o livro. Não é um livro qualquer, é a História completa do Brasileirão! Fartamente ilustrado e muito bem documentado, com um acabamento impecável.
Sou carioca, nascido no dia do samba, rubro-negro e fanático por futebol. Sou também um cara bastante simples, interessado em mulher e futebol, tudo mais é o resto. Está certo que este ano o Flamengo esteve meio mal das pernas, com um campeonato para ser esquecido. Mas continuamos o único time grande do Rio de Janeiro que nunca - eu disse NUNCA - foi rebaixado.
História completa do Brasileirão é o livro, os outros são só literatura. Valeu, Guga, adorei o presente! Agora, com licença, vou retomar a leitura.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro continua lindo, mas acho que até Ele está pedindo ajuda. Não faço parte dos apavorados de plantão, mas, convenhamos, a situação está caótica. Foi nessa desordem que entrincheirei-me e rumei para a UERJ para fazer a prova de espanhol, última etapa do processo seletivo do doutorado. Nas ruas, poucas pessoas e pouquíssimos carros. Não vi nenhum pegando fogo, então, avante.
Cheguei ao meu destino bem rapidamente, sem trânsito algum no trajeto. Uma aura de anormalidade acompanhava a cidade. Os transeuntes não se olhavam. Pareciam não respirar. Pisavam em ovos. O medo parecia uma entidade que a todos dominava. As últimas imagens da cidade em guerra permanecia na retina da população. O tempo nublado combinava com a guerra urbana que a cidade assiste; o calor infernal fazia jus à onda de incêndios pela cidade. Desci do ônibus e, à frente, vindo em minha direção, três homens suspeitos, com atitudes suspeitas, pareciam tramar alguma coisa. Passaram por mim e seguiram seu caminho. Não tinha tempo para eles. Também não tinha medo, ou melhor, meu medo era outro. Diferentemente de todos os cariocas, estava em pânico porque dali a poucos minutos estaria diante de uma prova de um idioma que eu desconhecia. Nunca estudei espanhol na minha vida e a minha garantia era a semelhança com o português - muito pouco para a importância da ocasião.
Subi no elevador e, ao descer no Instituto de Letras, o reflexo das ruas, quase ninguém. Eu sabia de antemão que as aulas da graduação haviam sido suspensas, mas por telefone uma funcionária me garantiu que a prova não fora cancelada. E se a prova não foi cancelada, não seria o Comando Vermelho que me impediria de fazê-la. Eles que enfiassem seus fuzis no &%#! Há pelo menos uma semana que sofro de ansiedade, suo frio, tremo, tenho pesadelos e, pior, continuo sem saber espanhol. Precisava fazer a prova de qualquer jeito para me livrar desse tormento. Fosse qual fosse o resultado da prova, meu calvário estaria terminado. Apenas mais alguns minutos e estaria livre.
Na pós, encontro o Roberto Acízelo que me dá a notícia com seu jeito amigável: "Bateu com o nariz na porta." "Hã?" "A Prova foi cancelada." "Você tá brincando!" "Não, é sério." "Mas eu telefonei para cá, me garantiram que haveria a prova." "Você deve ter ligado antes da contraordem." "..."
De volta para casa, cego de raiva, pedi a Deus para colocar em meu caminho algum traficantezinho de merda metido a incendiário. Me serviria como uma luva para descarregar minha ira. Já que o mundo é tão injusto, a justiça seria feita pelas minhas próprias mãos. Na verdade, não queria fazer justiça, queria apenas aliviar minha cólera, e precisava de um motivo. Felizmente, nada estranho aconteceu, cheguei são e salvo e agora precisarei aguardar a nova data para a prova. Mais calmo e polianamente, penso que pelo menos terei mais tempo para me preparar para a prova. Mierda!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Agora

Agora sei que não sou o melhor E, honestamente, não o quero ser Agora estou livre, incógnito na multidão Mais um rosto anônimo entre tantos Hoje tenho certeza da minha pequenez Que me torna grande, imenso, repleto, pleno Faço de mim apenas mais um E, como mais um, tenho meus momentos - poucos, porém especiais Hoje me encontro onde sei que deveria estar Assim mesmo, sem medo de frases feitas Pois sou comum, nada especial Sem méritos nem louros nem aplausos nem prêmios Agora posso prosseguir de cabeça erguida Ciente dos meus erros passados, Mas mirando sempre o futuro, Com os pés no chão e a cabeça por aí, onde interessa - meu maior presente Hoje, certo de quem eu sou - e de quem eu não sou, Comprometo-me menos, arrisco menos, vacilo menos Mas acerto mais e valorizo mais cada conquista Mesmo aquelas aparentemente insignificantes Hoje vivo e vivo respiro aliviado Retiro as máscaras todas Sem deixar de ser, contudo, múltiplo - agora mais do que nunca Agora respiro fundo e vou-me embora pra Pasárgada

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Finalmente recuperado

Estou finalmente recuperado. Os últimos 30 dias foram horríveis, mas eles passaram. Há sete anos que não passava por isso de forma tão intensa, e acreditava que nunca mais isso se repetiria. Mas se repetiu. O saldo não foi nada bom, interrompi os cursos que fazia na UERJ e decidi esquecer, pelo menos este ano, qualquer outra atividade acadêmica. Todavia isso não se compara ao maior estrago - o familiar. A Elisa ficou sobrecarregada, com toda a responsabilidade da casa sobre si, a Maria Eugênia se privando de minha companhia, e a Maria Antônia desenvolveu uma fobia e um estresse depois de presenciar minhas crises. De todas as consequências de minha doença esta foi, sem dúvida, a pior e mais penosa. Aos poucos, e com muita paciência, estamos conseguindo fazê-la superar esse trauma. Ela já está muito melhor e em breve estará 100%, como eu.
Decidido a me dedicar a minha saúde e à família no restante do ano, a única atividade acadêmica que ainda pretendo cumprir é a prova de espanhol que farei dia 26 de novembro como última etapa do processo seletivo do doutorado. Então o que fazer? Juntei minhas duas princesinhas e comecei a ler a obra completa de Monteiro Lobato, que eu mesmo nunva havia lido. O contato que eu tinha com sua obra era via adaptação televisiva. Adorava assistir ao Sítio do Picapau Amarelo quando era criança, mas jamais havia aberto um livrinho sequer do autor. Chegou a hora.
Duas coisas me surpreenderam. A primeira foi o interesse despertado na Maria Eugênia, que ouve atenta e concentrada as histórias. Ri, pergunta o significado de alguma palavra, faz comentários, enfim, se diverte com as aventuras. A Maria Antônia, por sua vez, ainda não tem idade para se contentar em ouvir histórias; ela quer gravuras, desenhos e não tem muita paciência para ficar sentada quieta - são dois anos e oito meses de pura bagunça. Mas fiquei feliz com a resposta da Maria Eugênia à leitura. Até então seu universo literário era composto basicamente de histórias de princesas. Nossa última sessão de leitura durou cerca de duas horas e só foi interrompida porque, como ela já está aprendendo a ler, ela queria ler para mim uma historinha do livrinho da Pequena Sereia.
A segunda surpresa foi o texto em si. Até então, eu estava habituado com as histórias de princesas que contava para as crianças, com sua linguagem apropriada para a faixa etária delas. Com Monteiro Lobato, apesar de ser também literatura infantil, a linguagem empregada é outra, muito mais rica e complexa daquela das historinhas. Isso nos faz pensar em muita coisa, desde a construção cognoscitiva das crianças que liam Monteiro Lobato décadas atrás e das crianças que têm acesso a uma literatura pasteurizada hoje. Essa pasteurização é corrente em nossos dias em várias frentes, no entanto. Lendo Monteiro Lobato, fiquei encantado com o que lia e ao mesmo tempo me autocensurei de não ter procurado essa leitura há tempos, quando ainda criança, pois certamente teria aproveitado e me enriquecido mais. Agora, resta-me esperar a próxima sessão de leitura, e me divertir junto com Maria Eugênia. Para quem está saindo de um período horroroso de saúde, nada melhor do que a companhia infantil e um bom livro para restabelecer a paz de espírito.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O futuro da humanidade

Uma vez Flávio Carneiro escreveu um texto explicando por que não gosta de ler Paulo Coelho. Isso é melhor do que simplesmente repetir que a literatura de Paulo Coelho é ruim sem que sequer se tenha lido sua obra. Eu, por exemplo, que faço coro aos críticos do "mago", só li Brida, leitura obrigatória do colégio, quando tinha quinze anos. Razão suficiente para, de lá para cá, nunca mais ter lido nada, nem tenciono ler. Digo isso porque ganhei de presente, de uma amiga de minha mãe, O futuro da humanidade, de Augusto Cury. Na minha edição, na capa, consta a informação de "8 milhões de livros vendidos no Brasil". Bom, é um bocado de livro para a realidade editorial no Brasil. Lembro que meu primeiro comentário ao receber o presente foi "Não acredito que ganhei um livro de autoajuda". Mas, como a amiga de minha mãe é uma pessoa muito querida, resolvi ler o livro. Ainda mais porque ela deve ter me presenteado com o livro porque estou passando por um momento bem delicado de saúde. Há três semanas que estou às voltas com um velho problema neurológico que me complica bastante a vida. Não tenho conseguido sair de casa, Elisa e as crianças estão sofrendo bastante, estou muito dependente, com dificuldade de me alimentar sozinho, tomar banho sozinho etc. Academicamente, desisti dos cursos que estava fazendo como ouvinte na UERJ e ainda fui muito mal na entrevista do doutorado, que precisei fazer de cadeira de rodas. Nessa última semana melhorei muito, já consigo levantar da cama e caminhar até o sofá, mas ainda é prudente ficar em casa para evitar maiores transtornos. Diante desse quadro, um livro de autoajuda, na visão da amiga de minha mãe, viria a calhar. Li metade do livro e não aguentei mais, abandonei a leitura. Eu sempre procuro, ao iniciar um livro, ou um filme, ir até o final, não importa se estou gostando ou não. O único livro que me lembro de ter abandonado no início foi O cavaleiro da esperança, de Jorge Amado. E agora O futuro da humanidade. Continuar a leitura é uma ofensa a minha inteligência e a minha intelectualidade. Não vou, como fez o Flávio, escrever um texto para explicar por que não gosto de autoajuda, mas acho que vocês devem imaginar. Foi também o Flávio, em seu último livro - O leitor fingido -, que me ajudou a interromper a leitura sem culpas. Neste, Flávio fala que não há motivo para ir até o final se a leitura não é agradável - uma coisa meio que óbvia, não é verdade? Tenho inúmeros livros que gostaria de ler - e que não encontro tempo para a leitura - para me ocupar com o Dr. Augusto Cury. Nágile, agradeço bastante o presente, mas sou bastante exigente quando o asssunto é literatura.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A praça*

Todo menino da praça quinze voam ligeiro contra o sol que trafega no asfalto da transversal que corre até a praça quinze meninos voam na baía menina de saia curta olha perdida a rua sem fim da praça quinze ratos fogem para quinze buracos cavados no asfalto cinza do rato visto do alto pelos quinze meninos que sonham com uma única saia curta da menina de olhar perdido no céu da praça quinze voam para os buracos dos ratos perdidos na baía latrina da prata praga praça quinze meninos são quinze ratos cavando quinze buracos na única saia curta das quinze meninas perdidas na praça. ____________ * Escrito em 1995 e publicado em 2002.

domingo, 17 de outubro de 2010

O menino*

O menino tem de perto sua vida seguindo-o paralelamente, qual sombra vivendo à luz do sol. Levado pelo cansaço, vencido pelo entusiasmo. Seu corpo vermelho destaca-se na cor cinzenta do mundo que salpica brandas gotas d'água. O passo adiante entre a vida e o menino, intervalo de tempo, intertexto de espaço. O menino esbarra em sua vida no meio do caleidoscópio.
O sonho do menino - desafasagem espaço-temporal - é sempre aliada às mais velhas tradições, todas elas, juntas, numa crise epilética. O desespero surdo não percebe seus próprios gemidos. A vida permance espreitando o menino.
O menino acordou. Traz em si sangue quente, adrenalina e fadiga dando suporte ao caos. Caos de todos os dias, todos os momentos, diversas variações. E a vida do menino? Permanece desconectada da realidade, atira inconsciente em realidades... Qual seguir? Qual dançar?
Traveste-se a cada esquina encontrada na grande avenida, o menino. Seu rosto, ao mesmo tempo, sorri da janela do ônibus, de cima dos viadutos, de dentro das casas, em todos os espelhos para todas as direções. Cruzam-se corpo e mente, vermelho e cinza, o rapaz. Chega a bifurcação. Menino e vida. Rapaz e retorno. A avenida.
Segue no espaço, dança no tempo, o fim da linha. Anoitece. A vida desaparece, esquece do menino, dá lugar ao homem. Sem seu espião o menino brinca. Agora é ele que segue a vida. A avenida. A toda esquina uma face, um sorriso, sorrindo para a vida alheia do menino, que brinca despreocupado na longa avenida. Sua vida? Foi despistada na septuagésima-segunda esquina. Segue perdida, a vida.
O menino, agora, dá corpo à sua trajetória vermelha. Todo o espaço percorrido, do sempre para adiante, transforma-se num rito psicodélico. É vermelha a aveniida que distende seu comprimento, converge sua largura e recebe uma altura inconstante. Tórridas gotas d'água agridem o menino. O tempo é um ponto fixo. O espaço é uma frase sem sentido. Com uma das mãos ele pega o relógio. Com uma careta ele devolve-o ao tempo. Estático.
Despe-se a cada esquina encontrada na alucinógena avenida, o menino. Seu corpo é um só bloco compacto, material de pura racionalidade. E sua vida, ainda perdida? O rubro de sua matéria torna-o demoníaco, deformado. Percebe então o mundo de ponta-cabeça, a face avessa às mais velhas tradições.
Escorre por entre seus dedos toda a sua irracionalidade; a lógica de sua razão leva-te à mais tórrida obsessão. Efemeridade. Faculdade ineficaz da memória. O menino vive anacronicamente no mesmo espaço abstrato: a avenida, suas esquinas, seus desvios, sua morfina.
A charada da bifurcação: o momento da divisão/criação da possibilidade de germinação, o paradoxo, enfim, desvendado. Contato com feiticeiros, herdeiros de conservadoras diferenciações. As esquinas sucedem. O tempo multiplica-se num espaço imutável. O caminho vai ao encontro da verdade oracular. Fim.
E por entre sombras e desvios, atalhos e ataques, tempos e espaço, razão ou não, tradição e variação, a vida do menino observa-o com um sorriso sarcástico de quem ainda tem o que dizer (mal-dizer).
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* Escrito em 1995 e publicado em 2004.

domingo, 10 de outubro de 2010

Metablog

Quando criei este blog, a ideia era a de dar continuidade ao Diário de um eu, onde eu registrava o making-off da minha dissertação de mestrado, anotando minhas leituras, tecendo comentários diversos sobre os textos lidos e a minha participação acadêmica, enfim, eternizando, de alguma maneira, aquele momento, por vezes preocupado em ser fiel aos fatos vividos, por vezes me distanciando deliberadamente deles, exercitando minha imaginação. Essencialmente seria isso o que eu faria aqui também. Mas aí aparece um probleminha. Meu blog, ao contrário do diário, tem leitores, mesmo que poucos, e isso faz uma enorme diferença. A consciência de que serei lido serve como um baita censor para mim. Aqui tenho pudores que não existiam lá. É curiosa essa pudicícia uma vez que a ideia inicial do diário era a de publicá-lo quando da defesa da dissertação - o que ainda não foi feito, diga-se de passagem. Mas mesmo não sendo um diário clássico, secreto, sua publicação se daria após ele concluído, o que não acontece aqui, nessa escrita seriada que conta com possíveis intervenções de leitores. A resposta imediata e plural que o blog oferece é por um lado estimulante, pois dialógica, mas, por outro, é cerceadora, pois me aponta as críticas ainda por virem e evidencia minha insegurança. Se o diário for publicado, e lido, eu não terei nenhuma resposta dos leitores - salvo alguma possível resenha que alguém resolva escrever sobre ele. Mas o blog é como ter incontáveis olhos me espionando - e me julgando -, o que me faz parecer um prisioneiro do panótico.
Pensei nessas coisas todas porque acabei de ler Ficção impura, da Therezinha Barbieri, e não tenho simplesmente nada a dizer sobre o livro. Nem uma linha. Mas gostaria de dizer que o li, de maneira a mapear minhas leituras de algum modo. Estou pronto a concordar com a Mariah que isso não é de interesse de ninguém e que, se eu quiser angariar leitores, deveria escrever sobre minha vida sexual. Acontece que tenho toc e agora preciso dar um jeito de registrar isso de alguma maneira, se não enlouqueço, fazer o quê? Então, pensei, não posso simplesmente colocar no blog, para os possíveis olhos que vigiam, que li o livro sem um texto minimamente interessante que o resenhe ou invente alguma história em torno dessa leitura. O que fazer? E eis que me ocorreu que preciso me virtualizar mais, o blog não é mais resposta para minhas necessidades, ele precisa de um padrão de qualidade (!), precisa cativar os leitores, precisa ser literatura (?).
Enfim, a solução encontrada foi a de me embrenhar no mundo virtual e aderir ao Twitter. Em poucas linhas poderia alcançar o mapeamento desejado e dizer "li Ficção impura, da Therezinha Barbieri". Não que isso tenha alguma relevância, acreditem, não tem. Dizer que li este livro serve apenas para acalmar meu espírito obsessivo e compulsivo. Agora posso mais facilmente exibir-me academicamente, respeitando o espaço deste blog para o que realmente interessa, eu acho...
Ainda sou um iniciante internáutico, o que faz de mim quase uma aberração, e só o fato de eu postar esses rascunhos aqui já é uma vitória, pois sempre escondi meus escritos. Pouco a pouco vou conseguindo achar o tom do blog, como agora terei que achar também o do meu twitter. Correndo o risco de ser repetitivo, é estranha essa coisa de escrever e postar imediatamente, sem que o texto amadureça e adquira consistência. Postar sem reescrever, sem trabalhar, cortar, copydeskar tem sido uma tarefa corajosa. Mas isso me dá também, por outro lado, uma espécie de credencial, no sentido de que poderia argumentar que se o texto não é bom é porque foi escrito "de qualquer jeito". Não conheço ninguém que tenha entrado em crise existencial por conta de um blog, e aí forçosamente me lembro novamente da Mariah (por onde anda sumida?), sempre a rir-de de minhas crises. Bom, vou ficando por aqui, tentando não me preocupar muito, tentando não me levar muito a sério, afinal um post tende a ser esquecido no minuto seguinte da leitura nesse mundo de muitas informações que nos fazem ficar cegos de uma cegueira branca, como em Ensaio sobre a cegueira.

sábado, 9 de outubro de 2010

Exercício insone

Parecia hipnotizado pelo belo par de seios. Encarava-os ostensivamente, sem receio de parecer indiscreto ou grosseiro. Não conseguia, desde cedo, pensar em qualquer outra coisa que não fosse sexo. E agora, no meio da noite, estava diante do objeto de seu desejo. A morena tirava-lhe do sério. E ela sabia disso. Ela tinha plena consciência do poder que exercia sobre ele, sabia que, bastava um gesto seu, para a noite terminar na cama. Vidrado no decote, ele não percebia os sorrisos e os trejeitos dela. Talvez se os visse, criasse coragem e fosse lá falar com ela. Já fizera isso outras vezes, já conseguira comer muitas mulheres em situações similares, com seu jeito peculiar de rapaz ao mesmo tempo respeitador e atrevido. Mas hoje era diferente. Hoje ele se deixou hipnotizar, perdeu sua visão periférica e só mirava o decote. A morena, por sua vez, divertia-se com a falta de jeito dele. E provocava. Erguia lentamente a tulipa de chope, deixava uma gota pingar sobre seu peito, contraía a musculatura e bebia com prazer a bebida gelada. Seu corpo sempre quente, quentíssimo a essa altura. Durante muito tempo ela se privou desse tipo de jogo erótico. Sentia-se reprimida, não queria ter fama de fácil. Ele ainda sem coragem de agir. Não conseguia sair do pensamento e partir para a ação. Não se lembrava de ficar paralisado dessa maneira antes. Para ela, a sexualidade há muito silenciada agora ganhava ousadia. Por que deveria permancer reprimindo-se, questionava-se, se todos, em todos os cantos, só falavam de sexo? A proliferação discursiva certamente trazia benefícios para os locutores, mas e ela? Não era muito de falar sobre o assunto, só com uma ou duas amigas mais chegadas, com todo o recato próprio de mulheres educadas para se assujeitarem, mas também deveria permanecer alheia aos seus desejos? Até quando? Por que não levantar-se, caminhar decidida até o rapaz atônito e incrédulo, inclinar-se sobre ele e efetivar todo o seu poder? Poder de gerar a vida. E de gerir também. Levantou-se, mas ato contínuo acovardou-se e foi ao toalete. Quando finalmente voltou, ele não estava mais lá.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Luiz Costa Lima: uma obra em questão

Não tenho a menor pretensão de escrever, quase meia-noite, depois de um dia cansativo, um texto capaz de contemplar o pensamento de Costa Lima - aliás, esse é um ponto negativo dos blogs, tipo de escrita rápida que não permite um tratamento mais depurado do texto, cujo resultado assemelha-se muito a uma crônica, escrita no calor da hora para ser também lida no calor da hora. Mas aproveito a ocasião para, seguindo o exemplo do teórico, instigar-me a pensar, espécie de exercício de atividade erótica.
Para Costa Lima, foi a pergunta infantil de seu filho - o que é ficção? - que o motivou a encontrar respostas e a pensar a questão do ficcional. No meu caso, a motivação é outra, mas talvez a obstinação seja a mesma. Desde 2007 que busco compreender a literatura contemporânea e já consegui responder algumas questões, mas percebo que o trabalho ainda está no início e muito há o que investigar. Por que a primeira pessoa é tão comum na prosa de ficção da atualidade? Que subjetividade é expressa através desse eu que narra suas vivências? Por que os diários secretos ganharam nova configuração e hoje são exibidos virtualmente? De onde vem a necessidade em se mostrar? E a de espionar? Quais são as consequências estéticas dessa nova forma de escrita? Etc. etc. etc. Agora já é mais de meia-noite e finalizo dizendo que este post não vai responder a nenhuma dessas questões, mas apenas servir-me para registrar, diaristicamente, minha presença no debate de hoje à noite na UERJ, afinal os diários agora são virtuais e a nossa intimidade está aberta a visitações.

sábado, 2 de outubro de 2010

Carta para o meu amigo Walter

Querido Walter, depois de tantos anos de amizade, essa é a primeira vez que lhe escrevo, motivado, é verdade, por conversa com nosso amigo Silviano. Você sabe que sou bastante reservado, homem de poucas palavras, caseiro, indesejoso de incomodar, vivo sempre quieto no meu canto. Mas a figura serelepe do esforçado Silviano, todo feliz com o retorno e as benesses de sua correspondência, não me sai da cabeça e me motivou a também escrever-lhe, querido amigo. Não, não pretendo acusar-lhe, como fez o ingênuo Silviano, de qualquer participação e responsabilidade pela perda da minha aura; sabemos que esse assunto, nos dias de hoje, já é ultrapassado, deixemos a pós-modernidade sossegada com seu desassossego. Esta carta pretende apenas justificar-me por uma decisão que, se mal interpretada, pode arranhar nossa amizade.
Você bem sabe que, mesmo à distância, sempre mantivemos contato, nunca nos apartamos por completo. Mas você também sabe que meu espírito reclamava um convívio mais próximo, mais estreito, talvez por carência ou ciúme. Não bastava saber que você sempre esteve pronto para me ouvir e me responder, era necessário diminuir a distância. Foi com esse desejo e essa necessidade, Walter, que me inscrevi no curso Visões da literatura a partir de Walter Benjamin: memória, trauma, testemunho. Dessa maneira, pensei, finalmente estaríamos mais próximos, e nossas conversas receberiam novas e valiosas colaborações. Lucraríamos todos, assim, com o intercâmbio de experiências. Você e eu.
Infelizmente, meu amigo, não pude dar cabo à iniciativa e precisei cancelar o curso, após algumas poucas aulas, e gostaria de eu mesmo comunicar-lhe as razões, para que não falte lisura no nosso relacionamento. Deixe de tolices, imagino que seria isso o que você me diria, do seu jeito ao mesmo tempo rabujento e brincalhão, mas já que comecei, deixe-me terminar. Você bem sabe que minha vida é bastante corrida, que tenho muita dificuldade em me adaptar à correria dos novos tempos, que muitas vezes me perco no meio de tanta tecnologia que, no meu caso, mais atrapalha do que ajuda. Sou um espírito velho, Walter. Mas tento, faço um esforço danado para conseguir cumprir todas as minhas atividades de modo louvável. Muitas vezes sinto-me como um equilibrista chinês, tentando dar conta da minha vida acadêmica, das tarefas domésticas, das minhas duas filhas, trabalho, lazer, matrimônio. Modéstia à parte, de um modo geral sou bem sucedido nas minhas atividades, mas fracassei com o curso, querido amigo. Não estava sendo mais possível ir e voltar da PUC em tempo hábil. Para eu conseguir vencer o trânsito, a distância e a impaciência para atravessar a cidade, eu precisaria abrir mão de outros compromissos igualmente importantes para uma vida pós-moderna. Não ria, a pós-modernidade é sim uma realidade hoje, quem diria, não é verdade? É certo que muitos ainda sentem dificuldades em saber o que é realmente a pós-modernidade, mas deixemos isso de lado por ora.
Querido amigo, terei que me contentar com nossa velha forma de diálogo, que, diga-se de passagem, sempre foi muito proveitosa. Divirta-se com os demais benjaminianos que prosseguem no curso e, vez por outra, mande saudações minhas. Você sabe onde me encontrar, estarei sempre à sua disposição. Walter, vou ficando por aqui, pois ainda preciso tratar de assuntos pendentes e que carecem de uma solução imediata. Gostaria de ter mais tempo para lhe escrever, mas a falta de tempo parece ser uma tônica na correria do século XXI. Você, que sempre refletiu sobre a literatura, se espantaria de saber das novas formas de prática literária deste início de século. Depois, com mais vagar, escrevo a respeito para pensarmos juntos essa questão. Com afeto, um abraço de seu amigo Bruno.
"Pois esta identidade, bastante fraca contudo, que nós tentamos assegurar e reunir sob uma máscara, é apenas uma paródia: o plural a habita, almas inumeráveis nela disputam; os sistemas se entrecruzam e se dominam uns aos outros". Foucault

Acontecimento

Me surpreendeu o excelente público que o seminário Espirais de poder e prazer, do Mário Bruno, recebeu nesta sexta-feira, primeiro dos três encontros na UERJ. O surpreendente não é uma auditório lotado para ouvir o professor, mas sim essa lotação ser numa sexta-feira chuvosa à noite. (Soube que o seminário foi uma iniciativa do diretório acadêmico, mais uma surpresa, pois sempre achei que a última coisa que o pessoal que se mete em DA's quer é estudar - a baixo mais um preconceito).
A partir do pensamento de Foucault e Deleuze, Mário Bruno trabalhou convergências e divergências entre os filósofos, mas não é sobre isso que falarei aqui. Quero apenas registrar o ecletismo do público, que tinha desde alunos de graduação até profissionais de variadas áreas, como medicina e direito. Talvez isso tenha sido fruto da tentativa do Mário em "popularizar" a filosofia, pois, como disse Deleuze, a filosofia é importante demais para ficar restrita a especialistas.
Depois do seminário foi oferecido um comes e bebes, mas não fiquei para a confraternização, a noite chuvosa de sexta-feira guardava outro destino para mim, mas isso já não interessa aqui.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cinco poemas meus foram publicados na revista A cadeira, da Academia Niteroiense de Letras, sessão Saia da Gaveta. São poemas escritos entre 1993 e 2006. Confira!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Hoje terminei de ler Ficção brasileira contemporânea, de Karl Erik Schollhammer, da Coleção Contemporânea: filosofia, literatura e artes. Apesar de ser um bom livro, apresentando uma leitura atenta e ampla da prosa contemporânea, não me acrescentou muita coisa. Não quero parecer arrogante, longe disso, mas, como disse em post anterior, estou estudando literatura contemporânea desde 2007, daí a falta que senti de alguma novidade no livro do Karl Erik, tudo que ele apresenta parecia déjà vu. Sinto que, para singularizar minha pesquisa, preciso aprofundar minhas leituras filosóficas, pois serão elas que darão um quê diferencial ao meu trabalho. Falando nisso, hoje fiz a inscrição no doutorado e, não sei por quê, estou uma pilha. Acabei optando por espanhol mesmo, mas ainda não consegui falar com a Vera, uma professora indicada por uma amiga da Solange, minha ex-professora de inglês. Ano passado estava super confiante e me dei mal, espero que este ano as coisas se invertam...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Perfil

Encontrei minha orientadora hoje na UERJ. Papo rápido de corredor e, naturalmente, falamos sobre o doutorado. Tudo ia bem até que, de repente, ela sentencia: "Você não tem perfil de literatura contemporânea". Assim, direto, sem lubrificante. Ora, em 2007 fiz uma especialização com bastante ênfase em literatura contemporânea; em 2008 e 2009, durante o mestrado, só li e só escrevi sobre literatura contemporânea; em 2010, na entressafra, continuo às voltas, quase que exclusivamente, com literatura contemporânea para, em 2011, se tudo der certo, iniciar um doutorado para pensar a literatura contemporânea... e eu não tenho perfil de literatura contemporânea?! O que vem a ser isso? Qual é o meu perfil?
Acho que o meu perfil é o de um cara que não tem orkut, facebook, twitter ou qualquer outra ferramenta virtual para a construção de uma identidade. Você vai me dizer que é muita cara de pau a minha dizer isso justamente num blog intitulado Identidade de um eu. Eu até poderia dar o braço a torcer, mas não sem lembrar que este blog é recente e que eu relutei muito em dar as caras por aqui. E acrescento que resisti bravamente, mantendo um diário antes de sucumbir às pressões internéticas e me tornar um blogueiro - Christoph Türke já dizia que quem não tem e-mail, telefone celular e website está morto socialmente. Então vim aqui para renascer, por que não? E também para, como minha pesquisa de doutorado é sobre blogs, me ambientar.
A propósito, acho muito difícil falar sobre literatura contemporânea sem falar em blogs. Eles estão aí, são uma realidade, e merecem um estudo mais sistemático. De que forma eles oferecem aos autores um meio de construção identitária? Como é possível inventar-se via posts, conjugando essa ficção de si com outros discursos autobiográficos? Que sujeito quer se construir discursivamente no espaço virtual para encenar-se como sujeito real? Quanto fragmentário é esse sujeito que necessita de vários discursos e de vários leitores para ser?
Pensando nisso que me despedi da Ana, ainda encucado por não ter o perfil de literatura contemporânea, e me encontrei com meu amigo Leonardo. E foi quando ele me perguntou, à queima-roupa, qual a diferença entre pesquisar a vida alheia na literatura e xeretar a vida alheia no orkut, por exemplo, que percebi que pairava no ar alguma conspiração. Minha primeira reação foi a de dizer que são coisas completamente diferentes, mas o Léo não se convenceu facilmente. E me fez concordar que, no final das contas, o que está em jogo é o exibicionismo e o voyeurismo próprios de nosso tempo. Mas asseguro que é bem diferente pesquisar como o autor retorna na contemporaneidade do que simplesmente vasculhar a página de algum Sr. José num site de relacionamento. Quero crer que eu tenho alguns neurônios a mais para não me satisfazer com os perfis e citações orkuteiros, embora, para me convencer de que tenho sim o perfil da literatura contemporânea, tenha decidido me integrar ao twitter. Agora terei seguidores, procurem-me em breve.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

New chapter: bye-bye English

Depois de me angustiar, de ver nascerem inúmeros fios brancos na minha cabeça, de sofrer com o fantasma da desaprovação, depois de amaldiçoar a língua inglesa e toda a sua lógica ilógica, decidi-me finalmente por fazer a prova de espanhol. Não hablo espanhol fluentemente, aliás, não falo espanhol de jeito nenhum, mas, se mesmo assim, optei pelo idioma de Cervantes, vocês podem imaginar como não é a minha compreensão do inglês. I hate English e por isso mesmo não quero, não posso e não devo fazer outra prova de inglês, sob o risco de nova reprovação. Não sei de onde vem meu bloqueio, mas sei que ele veio e se instalou. Como estava um tanto cansativa essa ladainha da dificuldade em aprender inglês, urgia dar uma guinada no enredo. A novela da prova de língua instrumental ganha nova direção e novo suspense - será que em dois meses conseguirei me preparar adequadamente? Será que conseguirei alguma professora? Será que me arrependerei? A essas perguntas só terei respostas no dia 26 de novembro, data da prova. Até lá a novela continua...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Rapidinhas

Há mais ou menos três semanas terminei de ler Todos os nomes, de José Saramago. É um dos melhores romances que eu já li e há muito uma leitura não me causava tamanho impacto. Fiquei de escrever alguma coisa a respeito aqui, mas o tempo passou e perdi a ocasião, à espera de ouvir de outrem o que eu mesmo deveria dizer;
Discussão interessante na aula do Acízelo sobre o papel do especialista em literatura;
Conferência com Christoph Türke: não conhecia sua obra mas fiquei bastante interessado em ler A sociedade excitada, que, pelo que foi dito, será útil para a minha pesquisa. Também valeu por ter revisto algumas pessoas queridas, como meu amigo Júlio;
Conferência Autobiografia, antibiografia e memória, do ciclo Contar a vida alheia, na ABL. Hoje o conferencista foi o acadêmico Alberto da Costa e Silva, com uma fala muito boa. Para ele, a autobiografia difere das memórias porque a primeira baseia-se em documentos para falar de si mesmo como se fosse um outro ao passo que nas memórias o memorialista ambiciona reconstituir liricamente seu passado. Ele completou afirmando que autobiografia não é uma vida, mas a invenção do vivido, e que o romance é um tipo de antiautobiografia, uma vez que de alguma maneira é a vida do autor que está sendo contada - daí a afirmação de que se querermos saber a verdade autoral devemos ler sua ficção.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cal(eu)doscópio

Este blog visa a registrar minhas atividades acadêmico-literárias, a mostrar apenas esse eu. Acontece que um outro eu veio empecilhar meu universo literário e, por conseguinte, o blog. Terça-feira não pude ir à aula e nem poderei ir amanhã novamente, sem falar de minhas demais atividades, acadêmicas ou não. Nada mais justo que eu abra, portanto, algumas poucas linhas para explicar o recesso (espero que breve).
Depois de 35 anos de excessos de todos os tipos, desde os gastronômicos, passando pelos etílicos, pelos narcóticos e pelos orgiásticos, chegou o momento de pagar a fatura. Ela tarda, mas sempre chega. A última cobrança me levou, durante o último mês, a uma série de complicações de saúde bastante dolorosas e desagradáveis. Meu fígado está comprometido e minha vesícula deixei ontem no hospital, depois de uma cirurgia que, honestamente, pensei que fosse ser mais tranquila. Pelo menos foi o que todas as pessoas conhecidas e amigas e irresponsáveis como eu me afirmaram a respeito. Vida normal no dia seguinte, não se preocupe, disseram-me unânimes. No meu caso, além de estar ridículo, com toda a barriga raspada, sinto dores horrorosas e não consigo ficar nem ereto nem deitado. Tirei licença de alguns dias para me recuperar, na esperança de segunda-feira retomar minha rotina.
Da minha rotina pretendo eliminar os excessos, afinal não tenho mais 25 aninhos. Agora sou um homem responsável (?!), pai de duas crianças e chefe de família. Não dá mais pra viver uma vida desregrada, sem hora pra nada, com o lema adolescente sexo, drogas e rock and roll. Pois é, encaretei, a idade chegou e, mesmo antes dos 40, já estou em crise. Com uma vesícula a menos. Será só mais um susto que, ao passar, me conduzirá para os desatinos de antes? Não sei, pausa para balanço.
Até segunda-feira, pelo menos, todos os eus irão descansar, a menos que, rebeldemente, como me costuma chamar a Elisa, eu mude de ideia.

sábado, 11 de setembro de 2010

E agora, José?

As inscrições para o doutorado já estão abertas. Projeto pronto, documentação quase toda ok, orientadora a mesma do mestrado. Tudo certo não fosse por uma dúvida angustiante - inglês ou espanhol como segunda língua instrumental? E agora, José? Fui reprovado ano passado em inglês e, apesar das minhas aulas particulares este ano, não me sinto seguro para fazer nova prova. Trauma? Bloqueio? O que acontece? Não sei. O que sei é que não sei inglês. Mas sei mais do que espanhol (!) Possível? Espanhol todo mundo sabe. Não deve haver tantos falsos cognatos assim de maneira a inviabilizar uma leitura. Não é possível que um falso amigo inverta radical e irremediavelmente o sentido do texto de modo a me declarar não apto também em espanhol. Preciso tomar um decisão, mas qual? Uma segunda reprovação em inglês me conduziria para o reino dos beócios. Nunca mais mostraria meu rosto em público novamente, não mais atenderia telefonemas, me exilaria de mim, em mim mesmo. Mas ainda há a remota possibilidade da aprovação, da volta por cima, do domínio triunfante, um ano depois, sobre a língua inglesa. Mas o espanhol me acena como uma possibilidade, mais segura e menos dolor. Um atalho tentador a tomar. Sim, espanhol, por que não? Ora, vou realmente me acovardar, vou desistir da luta, deixarei de domar a maldita língua bretã? Preciso de um divã, preciso que alguém decida por mim, necessito de algum ser vivente menos complicado e mais objetivo que eu que, pragmaticamente, me conduza pelos caminhos da razão, me mostre a realidade e me livre das armadilhas que eu mesmo crio para mim. E agora, José?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O circo*

Seria uma manhã como todas as outras. O sol quente nos asfalto, a bibicleta transportando caboclos na estradinha de barro, o capim seco esperando a vaca ter fome, o vento brincanco com os chapéus de palha... Mais um dia sossegado não fosse a estranha lona.
Uma única família. Chega desapercebida e instala-se num terreno qualquer que mereça sonho e alegria. Sim, alegria! Dois traillers, um caminhão e um carrinho transportam a aparelhagem. São meninos, velhos, mulheres, que, em meio aos latidos intrigados dos cachorros vadios, ajudam a erguer o castelo. Martelos, pregos, tábuas vão se agrupando em bilheteria, arquibancada, trapézio.
É noite. As melhores roupas do vilarejo desfilam para o magnânimo evento. Os homens trocam a enxada e a camisa aberta ao vento pela vestimenta dominical. As mulheres, vaidosas, se perfumam e se maravilham como Glórias Menezes, enquanto as crianças agradecem a oportunidade de usar um par de sapatos.
Respeitável público!!
Enfim é dado o tão esperado cumprimento. A adjetivação dada ao público ecoa até seus corações; já não são mais simples camponeses que se contentam apenas com uma garrafa de cachaça ou com as fantasias das novelas. São respeitáveis!
Vem a trapezista. Aquela mesma moça que estava na bilheteria com um sorriso humilde, conveniente a esta gente artista. Com desembaraço ela vai às nuvens naquele trapézio simples, pobre, tão rico... E é com sentimento de dever cumprido que recebe a ovação do público encantado. Bravo! Bravo! E como num passe de mágica vêm os palhaços, o vira-lata amestrado, a dançarina, a mulher que cospe fogo, o apresentador-palhaço-trapezista-dono-do-circo, e até uma cabrita equilibrista. Tudo tirado de sua cartola de fantasias. O público, ah! o público!, são semideuses a gozar as maravilhas do fantástico... Gritos, aplausos, assovios, lágrimas, brilho. El grand finale! Uma comédia da qual participam todos os saltimbancos. Bravo! Bravo!!
O espetáculo finda. Os semideuses voltam às suas casas não antes de brindarem à vida noite adentro.
Dormem. Sonham. Acordam. No dia seguinte, o sol quente no asfalto, as bicicletas transportando caboclos na estradinha de barro, o capim seco esperando a vaca ter fome, o vento brincando com os chapéus de palha.
* Escrito em 7 de abril de 1995 e publicado em 2004.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Teve início ontem, na ABL, o ciclo de conferências Contar a vida alheia. O primeiro encontro foi com a historiadora Mary del Priore, que falou sobre "Caçadores de almas: biógrafos, biografias e história". Bom, contar a vida alheia é, desde sempre, o que a literatura e a história fazem. E ontem Mary del Priore justamente aproximou essas duas disciplinas, uma vez que seria impossível, como queria a história, narrar a vida de alguém com premissas científicas, simplesmente porque a história também se vale da narrativa para construir a sua verdade. O máximo que um historiador conseguiria, mesmo respaldado por documentos que lhe assegurariam fidedignidade sobre os fatos narrados, seria a construção de uma verdade discursiva, não da verdade inquestionável. As biografias, que repousam entre o trabalho jornalístico, histórico e literário, ao mesmo tempo que seriam um documento asseverando a verdade contida no relato - principalmente se pensarmos no pacto autobiográfico de Lejeune -, também suscita dúvidas sobre o mesmo relato, já que o biógrafo utiliza também sua memória, sua imaginação, suas escolhas, enfim. Nesse sentido, na construção de um texto, seja ele biográfico ou não, poderíamos dizer que se trata, no final das contas, de ficção. É essa uma questão bastante ampla e complexa, com várias direções a serem tomadas, mas não me ocuparei delas no momento. Basta, por ora, situarmos a biografia num entrelugar entre história, literatura e jornalismo, agregando para si características dessas três construções discursivas.
Uma questão que vale a pena sublinhar é o interesse que a vida alheia desperta em nós, principalmente na atualidade. Programas televisivos e revistas de fofocas promovem uma maciça exposição da intimidade alheia, que encontra no público pronta receptividade, como se não soubéssemos mais viver sem as notícias dos famosos, ou melhor, como se elas nos fossem imprescindíveis para a constituição de nosso próprio eu. Pautamos nossas condutas de acordo com as fotos das revistas e com o comportamento real encenado em Big Brothers da vida. Talvez essa seja uma ferramenta eficaz para a produção de corpos dóceis, para a produção de subjetividades, para o agenciamento de desejo da nossa sociedade de controle, como pensou Deleuze. Uma última questão para finalizar. O que despertaria interesse, afinal de contas, no modo de vida de um anônimo, de um BBB, que, muitas vezes, para não dizer todas as vezes, é ridícula, nada edificante. O Sr. José, por exemplo, personagem de Todos os nomes, do Saramago, ocupava-se colecionando informações biográficas de pessoas famosas na construção de suas biografias. Era um hobby seu - a ocupação com a vida alheia. Mas a ocupação com a vida alheia de pessoas já famosas - não vou entrar no mérito da seleção - poderia se explicar justamente por serem pessoas famosas. Até o dia que o acaso lhe colocou nas mãos a vida de uma mulher de 36 anos totalmente desconhecida. E o seu interesse adveio justamente do seu desconhecimento - era preciso conhecê-la, afinal agora somos todos indivíduos, todos temos um nome, saímos da massa anônima da sociedade de soberania para atingirmos alguma importância na sociedade disciplinar e na sociedade de controle. Segundo Sr. José, "para a Conservatória Geral do Registro Civil não existem assuntos íntimos". Vamos continuar vigiando e sendo vigiados... Assim que eu finalizar o romance venho escrever as minhas considerações. Até.

sábado, 28 de agosto de 2010

Recado

Livros são cartas escritas para os amigos, só que mais extensas. É com esta citação de Jean Paul que Peter Sloterdijk abre sua conferência intitulada Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo, pronunciada na cidade da Basiléia a 15 de julho de 1997 e publicada, aqui no Brasil, 3 anos mais tarde. Se livros são cartas mais extensas endereçadas aos amigos, um post é apenas um recado. E é apenas um recado o que eu tenho pra dar no momento: leiam este livro. Qualquer coisa que eu me aventure a escrever sobre minha mais recente leitura será insuficiente para aprofundar as questões apresentadas pelo autor. Por limitação minha, é certo, mas ainda insuficiente. Posso apenas adiantar que é uma leitura importante para pensar a nossa sociedade contemporânea, midiática e pós-humanista.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida, minha vida

Uma vez disse a um grande amigo meu que queria ter a vida dele. Adoraria me dedicar exclusivamente aos estudos, ter tempo para assistir a filmes, peças, exposições, shows. Adoraria também fazer quantos cursos eu quisesse, participar de congressos, seminários, fóruns e tudo o mais que me desse na telha. Mas minha vida não me permite esse luxo. O tempo me é escasso, é um bem de que não disponho. Para conseguir fazer os cursos que estou fazendo como ouvinte este semestre, uma operação de guerra precisou ser muito bem planejada e articulada. Se uma peça do esquema falha, todo o planejamento é comprometido. Ontem isso aconteceu. Toda terça-feira a babá chega às 8 horas para que eu consiga chegar a tempo na UERJ. Como a Elisa ficaria em casa, dispensei a babá. Mas aí o imprevisto deu as caras. Maria Eugênia adoeceu, acordou de madrugada reclamando de dor de ouvido, e lá foi ela, assim que o dia amanheceu, com a Elisa para o pronto-socorro. Babá dispensada, fiquei eu em casa com a Maria Antônia, aflito vendo os ponteiros do relógio prosseguirem seu trabalho. Ligo para a babá, mas já era tarde, nada feito. O que não tem solução, solucionado está, diz o ditado. Cheguei atrasado na aula, não pude adiantar minhas leituras na biblioteca, e pensei na vida que eu queria ter. E foi pensando nessa vida que me dei conta que o tempo que me falta é muito bem empregado. Se por um lado não posso fazer tudo que eu gostaria, por outro as minhas princesinhas preenchem minhas horas maravilhosamente. Minhas filhas são o máximo! E lindas! E tagarelas, e bailarinas, e engraçadas, e divertidas, e inteligentes, e bagunceiras, e espertas e tudo o mais de bom que vocês puderem imaginar. Tudo bem, cheguei atrasado à aula, e daí? Iria à tardinha à ABL assistir a conferência "MPB e tropicalismos", com o José Miguel Wisnik. Outro imprevisto e lá vou eu buscar as princesinhas no colégio, pensando na minha vida e nas minhas escolhas. Acho que não preciso dizer que é covardia, porque as minhas filhas sempre vão ganhar a parada. Se sobrar um tempinho, leio mais algumas páginas, vejo um filme ou aprendo mais alguma coisa. Só se é criança uma vez, dizem, mas isso é mentira, porque, com elas, sou criança de novo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Umas outras realidades alheias

Primeiro dia do curso Visões da literatura a partir de Walter Benjamin: Memória, trauma, testemunho, na PUC. Sobre a aula não tenho nada a dizer, sabe como é, primeiro dia de aula serviu apenas para as apresentações de praxe. Mas vale o registro de minha impressão ao chegar na PUC - um outro mundo, uma outra realidade completamente diferente da minha. Olhando o vaievem dos filhos da puc (perdoem-me, não resisti ao trocadilho), ficou evidente como eu era um corpo estranho naquele lugar. Acho que a minha vestimenta de operário da literatura, seja lá o que isso significa, tornou externa a inadequação que era só interna. A heterogeneidade da turma, composta por alunos da PUC, da UFF e da UFRJ, me deixou mais à vontade, mas até chegar à sala sofri um bocado. Por alguns instantes imaginei como seria o dia-a-dia daqueles jovens universitários, e minha imaginação trabalhou bastante. É um tanto perturbador sair de minha realidade e viver a realidade alheia, mesmo que por curtos instantes. Walter Benjamin tomava a palavra alheia como impulso para o pensamento, então por que não posso tomar a realidade alheia como impulso para um post? Na volta para casa, no metrô lotado, outro choque de realidades - não faz parte do meu mundo me espremer em transportes coletivos, principalmente quando um anônimo qualquer, numa clara demonstração de "que se dane", resolve compartilhar a música de seu celular. Quer dizer, aquilo não era música, era um crime. Duas vozes em falsete se revezavam em letra e melodia sofríveis. Chegada minha estação, abandonei o concerto e corri para meu apartamento, reduto seguro de realidades alheias.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Eus

9 horas. UERJ. 11o andar. Biblioteca. Iniciei o dia com estas palavras: "O homem é consciência-de-si. É consciente de si, consciente de sua realidade e de sua dignidade humanas. É nisso que difere essencialmente do animal, que não ultrapassa o nível do simples sentimento de si. O homem toma consciência de si no momento em que - pela primeira vez - diz: 'Eu'. Compreender o homem pela compreensão de sua origem é, portanto, compreender a origem do Eu revelado pela palavra." Primeiro parágrafo de Introdução à leitura de Hegel, do Alexandre Kojève. Assim iniciei meu dia, como dizia. Pensando em consciência de si, desejo, reconhecimento, luta de morte em vista de reconhecimento, dominação, sujeição, trabalho, dialética, verdade é que gastei 90 minutos de minha manhã. Pergunto: que reconhecimento busco ao escrever um diário virtual? Por que o meu diário deixou de ser secreto para vir exibir-se aqui? Que eu diz eu no blog?
10:30h. Entro na aula do Roberto Acízelo. Discutimos um texto de Vico, uma primeira contribuição para o que viria a ser chamado de estética. Precisei fazer uma coisa que não me agrada muito - saí antes do término da aula. Ok, eu sou caxias, cdf ou algo parecido, mas dificilmente saio antes do fim ou chego atrasado. Mas hoje eu saí mais cedo. Não me reconheceria não fosse um motivo mais do que justo.
13 horas. Início das comemorações do sexto aniversário de minha princesinha mais velha, mas esse eu não cabe aqui. Para esse eu não há palavra, só silêncio.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um pouco menos ignorante

Um ignorante. Assim me senti no início da tarde quando meu amigo Leonardo me trouxe um livro que eu não poderia deixar de ler. Com os olhos brilhando, ele me entregou Linguagens líquidas na era da mobilidade, da Lucia Santaella. Nunca ouvi falar, disse meio constrangido. Mentira, exclamou ele boquiaberto. Diante de minha confirmação, atônito, ele perguntava como eu não conhecia a maior semioticista brasileira. Encolhi os ombros, fixei os olhos no chão e me apequenei. Um momento exemplar da dívida infinita à qual seria apresentado daí a minutos na aula do Mario Bruno. Sentado na sala, fui brindado com uma aula sensacional. Num momento, porém, me inquietei. A afirmação de que a filosofia é para todos mas não é para qualquer um ecoou no meu espírito ignorante. O que será que ele quis dizer? Seria eu qualquer um? Estaria incluído dentre os excluídos? Me agarrei à primeira parte da sentença e perseverei: se a filosofia é para todos será para mim também. E foi com esse espírito determinado que obstinadamente ouvia cada palavra dita, que compreendia cada conceito explicado, e que formulava, de mim para mim, novos aforismos. O meu entendimento raso de Nietzsche ganhou corpo hoje. Ainda não sei de que é capaz esse corpo, mas ele já demonstra alguma consciência. Consciência em relação a quê é o que ainda resta saber, mas enfim consciência. Menos trágica do que se gostaria, posso senti-la como uma força ativa que, no final das contas, acaba por escapar à consciência, essencialmente reativa. Perdido nesses pensamentos, cheguei ao final da aula sem querer falar com ninguém, extasiado. De volta ao mundo ordinário, sentado contemplativo no metrô, com um sorriso no canto dos lábios, sentia-me um pouco menos ignorante...

sábado, 14 de agosto de 2010

Dois anjinhos

Agora estão dormindo. Parecem dois anjinhos. As coisas mais lindas do mundo. Mas estiveram acordadas durante o dia. Transformaram a casa num pandemônio. A promessa que fizeram, logo após o almoço, de que se comportariam e me deixariam estudar à tarde não durou cinco minutos. Trancado no escritório, tentava em vão me concentrar. Mas a concorrência era desleal. Não eram dois anjinhos. Eram duas máquinas de fazer barulho. E valiam-se de toda sorte de brinquedos para produzir ruído. Impossível me concentrar. Decidi apelar para minha autoridade paterna. Fui até o quarto - o QG onde se concentravam as traquinagens - e, sem dizer nada, lancei um olhar intimidador. Pausa no barulho. Senti-me como um general que tem domínio sobre a sua tropa. Respirei fundo, orgulhoso, e dei meia-volta, marchando de volta ao escritório. Sentado à mesa, porém, recomeçam os sons variados. Bola na parede, xilofone e flauta de brinquedos numa sinfonia surreal, a televisão gritando, reclamando atenção das desordeiras, risos, brigas e... choro. Novamente o general bate a tropa em revista, busca saber o que aconteceu. Dadas as devidas explicações, muda-se a tática. Ao invés da intimidação paterna, uma conversa, olhos nos olhos, sobre a importância da obediência. Vocês não estão proibidas de brincar, mas façam isso sem tanta algazarra, papai precisa muito ler um texto nada simples. Em vão. As crianças estavam diabólicas. Na mesa, uma xerox de "Activo e reactivo", do Deleuze. À medida que a leitura avançava (?), lembrava-me da Solange, minha professora de inglês que tenta me fazer ler na língua de Shakespeare. Fico muito cansado depois da aula porque faço um esforço hercúleo para entender isso, digo regularmente a ela. A dificuldade agora se repetia, mas em meu idioma. Acho que não tenho muita capacidade de abstração, penso lendo Deleuze. Exausto. Lá fora, no quarto, silêncio inesperado. Suspendi a respiração, como a acurar os ouvidos. Nada. Ouviria uma agulha cair no chão tranquilamente. Isso não era bom sinal. Já deveria saber que duas crianças, em silêncio, estão tramando alguma coisa. O que os olhos não veem o coração não sente, pensei, querendo me convencer de que nada acontecera. Li mais algumas linhas. A respiração ofegante. Uma gota de suor descendo pela têmpora. Não me contive. A responsabilidade paterna falou mais alto. Levantei-me. Abri a porta com cuidado. Lancei um olhar para fora. Nada vi. Dei um passo. Outro passo. Sem motivo, parecia que era eu quem estava fazendo arte e que a qualquer momento seria descoberto e posto de castigo. Percebi um rastro de objetos abandonados pelo chão em direção à cozinha. As desordeiras certamente se refugiaram por lá. Mas cozinha não é lugar de criança, raciocinei. Pé ante pé, me esgueirei para surpreendê-las. O general pegaria a tropa com as calças na mão. O silêncio persistia. O que elas estarão fazendo?, perguntava intrigado. Quando finalmente criei coragem e entrei na cozinha, supreendi minhas princesinhas sentadas com duas bonecas rodeadas por toda a sorte de doces da casa - sorvete, balas, chocolates, biscoitos. Diante da minha atonicidade, me disseram, com a maior simplicidade do mundo: - Papai, chegou bem na hora, elas se comportaram e a gente prometeu que se elas se comportassem a gente ia deixar elas comerem o que quisessem. Quer comer doce com a gente? Diante dessa explicação tão natural e tão infantil, o que fazer a não ser me sentar também no chão da cozinha e brincar de ser criança com meus anjinhos?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A vez do leitor

Bernardo Carvalho uma vez declarou em entrevista que a motivação para o seu romance Nove noites surgiu do anseio dos leitores por histórias baseadas em fatos reais. Pensando no anseio do leitor, o autor escreveu seu romance misturando realidade e ficção com uma dose de referências autobiográficas na construção de seu narrador, de maneira a saciar o desejo do público. Essa realidade no ambiente ficcional é apenas aparente, no entanto. A referência a Nove noites, aqui, serve para dizer que se por um lado o leitor tem papel essencial para a realização da obra, por outro, na análise do romance, ele assume função coadjuvante. A crítica, ao refletir sobre o romance, se ateve ao aspecto autoficcional, discutindo os meandros autorais na desestabilização da certeza do leitor sobre as referências autobiográficas. É acertado dizer que a estética autoficcional só encontra a sua plenitude com a aceitação do leitor no jogo de esconde, mas, mesmo assim, ele, na análise crítica da obra, fica em segundo plano - os holofotes incidiam sobre o autor.
Essa mais do que longa introdução serve para dizer que Flávio Carneiro, em seu recém-publicado O leitor fingido (Rocco, 2010), dá ao leitor o destaque merecido. Já que falei em autoficção acima, aproveito o ensejo para dizer que o retorno do autor na literatura contemporânea se dá, dentre outros motivos, pelo interesse desperto nos leitores sobre a figura autoral, não mais incógnita sob os caracteres da obra impressa. Essa curiosidade do público, no entanto, encontra contrapartida em Flávio Carneiro, interessado em saber "como será o meu leitor em carne e osso?" (p. 16). A curiosidade primeira do leitor pela pessoa que escreve agora se inverte: o escritor quer saber quem é seu leitor, mesmo porque existe um equilíbrio entre escrita e leitura. Desse modo, "é necessário recorrer sempre a uma e a outra dessas atividades, de tal modo que a composição escrita se revele um corpo construído pelas leituras efetuadas" (p. 17).
Nada mais natural, então, que o texto do escritor Flávio Carneiro apresente situações vividas e leituras feitas pelo leitor Flávio Carneiro, em uma inserção muito bem construída, na tessitura do texto crítico, do universo empírico-ficcional. Essa mistura de memória e pensamento crítico dá a O leitor fingido uma qualidade imprescindível: uma leitura agradável, prazerosa e ao mesmo tempo inteligente. Não se preocupe, Flávio, dificilmente seu livro obedecerá ao segundo mandamento da arte de não ler.
É tão claro o papel de destaque que o leitor assume para Flávio Carneiro que, em contrapartida à função autor proposta pelo francês Michel Foucault, ele propõe a função leitor, pois "o lugar daquele que lê é também um lugar de sujeito. E se esse lugar é agora um entrelugar, de onde estaria ele falando, que autoridade teria para dar significado a um texto?" (p. 43). Se não podemos dissociar escritor e leitor, se o escritor é um leitor que escreve, de acordo com definição proposta por Carneiro, criou-se uma lacuna no pensamento do francês, agora preenchida.
Pensando bem, por que será que o leitor, normalmente, não recebe a atenção devida? Ou será que sou eu que não lhe dava importância? Se pensarmos que um texto só é texto quando é lido, que antes disso ele é silêncio, nada, vazio, a importância do leitor já está aí - na significação dada ao texto. Enganado ou não, a leitura de O leitor fingido serviu para que eu refletisse não só na função leitor, mas principalmente que todo escritor é antes um leitor - afirmação óbvia, mas igualmente desapercebida, por vezes.
Durante a leitura, somos convidados a refletir que a leitura não é restrita ao universo alfabético. Lemos quadros, arquiteturas, pessoas, situações, etc. Imediatamente lembrei da minha graduação em Letras na UFF e de uma leitura que eu fizera com o objetivo de escrever uma resenha para o curso de português III. Para quem não estava interessado em aprender gramática, tínhamos como alternativa escrever resenhas de livros da coleção Princípios, da Ática. Ao ler Leitura sem palavras, da Lucrécia D'Aléssio Ferrara, o então jovem e arrogante sentiu-se compelido a dizer que leitura pressupunha letras, palavras, frases, livros enfim. Nada como leitura após leitura...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Frases impensadas, impactantes e inverdadeiras

Sou um cara de frases ditas sem pensar. Sempre fui assim. Não sei por quê. Mas quando me dava conta já tinha soltado uma pérola que, na maioria das vezes, pra não dizer sempre, não correspondia exatamente àquilo que eu pensava e que eu queria realmente dizer. Acho que nunca fui muito bom orador, sempre tímido, com péssima dicção herdada de meu pai. Sou um homem de poucas palavras e, apesar disso, o rei das gafes. A prudência me faz calar. Em boca fechada não entra mosca. O problema é quando resolvo falar. A fala é traiçoeira, terreno incerto, volátil, efêmero, cruel. Por isso tudo e algo mais prefiro escrever. Não que eu escreva bem, não é o caso, tenho consciência disso. Escrever é, para mim, a tarefa mais difícil do mundo. Tenho dificuldades em me expressar por escrito e oralmente. A escolha em fazer Letras deve ter sido uma escolha autopunitiva. Freud explica. Mas a vantagem do texto escrito, para mim, é que ele me dá a chance do silêncio. Antes de mostrar um texto para alguém - exercício recente neste blog -, leio, releio e treleio o que escrevi. Se finalmente opto por mostrar, estou "seguro" que nada comprometor irá me atraiçoar. É claro que essa segurança inexiste e, no final das contas, sempre me arrependo. O texto escrito, no entanto, tem um predicado mais terrível. Ele documenta o que não deveria ter sido dito. Ele é prova e eu sou réu. Como ainda não me transformei num ermitão, como ainda mantenho, a duras penas, um convívio social, e como, sadicamente, tenho propensão para as letras, aqui estou escrevendo sobre a dificuldade de escrever, de falar, de comunicar, de dizer. Eu odeio blogs! Esta foi a mais recente frase dita sem pensar, a mais recente sentença impactante que eu proferi. Infelizmente não será a última. Foi para o Carlos Eduardo que eu disse essa preciosidade, nos minutos que antecediam a aula do Roberto Acízelo. Por que eu disse isso? Primeiro porque, ao mesmo tempo que eu não gosto de falar, eu odeio o silêncio. Ele me é constrangedor. O silêncio me obriga a correr para as palavras numa atitude suicida, incontornável, definitiva. Antes de uma aula de doutorado, natural que os amigos conversem sobre suas pesquisas, eu sei. E foi aí que se criou a armadilha. Todos sabem que meu projeto é sobre blogs. Por essa razão resolvi aderir à turma dos blogueiros. Preciso me familiarizar com o computador. Com a internet. Devo dizer que se por um lado as palavras me martirizam, por outro elas me fetichizam. As palavras me fazem leitor. Leio e amo ler. Não vivo sem esse expediente. Preciso ler. A leitura é tudo para mim. Não sou daqueles eus que leem de tudo. Quando falo em leitura, falo de literatura. Ela me basta. Ela me alivia de mim mesmo. Me transporta. Me acalenta. Mas ainda não tenho um hábito constituído de leitura de blogs, meu objeto de estudo. Apenas uma dificuldade a ser vencida. Também não tinha o hábito de acordar cedo. Aí tive filhas... Não tinha o hábito de ler blogs. Aí fiz o meu. Acredito que os blogs precisam e devem ser estudados mais sistematicamente como nova ferramenta de labor e experimentação literária. Acredito também que eles possuem características importantes, do mesmo modo que um tipo de texto que nem sempre me agrada. Mas isso não faz com que eu os odeie, Carlos. Não. Não os odeio. Aquilo foi dito na sala por um eu que nunca soube se portar com a palavra. Que sempre sofreu com a força do verbo. Que desconhece a oratória. Um eu angustiado entre o silêncio e a voz, indeciso de como e de quê falar. Mas ao mesmo tempo um eu que necessita ser lido.

Continuemos, pois

O simpósio Flusser in Rio foi encerrado com chave de ouro nesta tarde. A fala do Cláudio Castro Filho - Modernidade e estética fenomenológica em Vilém Flusser - teria sido o ponto alto da tarde não fosse a roubada de cena do Gustavo Bernardo, que fechou os trabalhos. Com uma camiseta verde com um ponto de interrogação preto desenhado na frente, ele "limitou-se" a ler um texto seu previamente dado aos participantes no Caderno flusseriano, uma brochura que continha, além do texto do organizador do evento, mais cinco ensaios escritos pelos monitores, que imagino serem alunos do Gustavo.

Isso não seria nada demais, vocês hão de concordar. Por que a leitura de um texto, de conhecimento prévio dos participantes, suscitaria algum alvoroço? Não foi o texto, no entanto, que tornou o desfecho do simpósio sensacional. Foi a leitura. Em pé, com a interrogação estampada na camisa diante de todos, Gustavo mal conseguia ler, a voz embargada pela emoção, a respiração ofegante, alguns segundos mais extensos para controlar o choro iminente. Particularmente, também me emocionei, e desconfio que todos os presentes se contagiaram com a emoção do Gustavo.

Nesse momento refleti que se um evento acadêmico consegue despertar, num acadêmico, tamanha emoção, nada está perdido e podemos e devemos seguir em frente. O texto em si é um bom texto, mas insuficiente para ocasionar tal comoção em alguém que não estivesse, como o Gustavo, envolvido diretamente com a organização e com os estudos em torno de Flusser. Ele procurou escrever uma ficção para homenagear o homem-rio, que não permite "que ninguém mergulhe duas vezes nas suas palavras". A academia se mostrou hoje um espaço onde homens ainda se emocionam, ainda carregam a emoção à flor da pele, ainda se mostram vulneráveis e... humanos. Continuemos, pois.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A filosofia da ficção de Vilém Flusser: um tapa na cara

Organizado pelo Gustavo Bernardo, o simpósio internacional A filosofia da ficção de Vilém Flusser acontece no teatro Noel Rosa, na UERJ. Não compareci na sexta-feira, mas estive presente hoje pela manhã ouvindo com interesse crescente o que se dizia à medida que percebia que as ideias do filósofo tcheco-brasileiro me serão caras para a minha tese de doutorado, lamentando nunca ter lido sequer uma linha sua e ansioso por enfim lê-las. Quando o filólogo alemão Markus Schäffauer, da universidade de Hamburgo, em seu trabalho intitulado "Além da ficção", iniciou sua apresentação, foi, para mim, como ter levado um tapa na cara. O interesse que sentia transformou-se em estupefação, e me perguntava por onde eu andara no mestrado que nunca tinha lido nada de Flusser. Explico.

Schäffauer iniciou sua fala queixando-se dos críticos contemporâneos que se esforçam em distinguir realidade de ficção. Perguntava o alemão por que os críticos tentam obstinadamente diferenciar realidade de ficção se os próprios artistas esforçam-se por aproximá-las. E complementa, citando Flusser, afirmando que os conceitos de realidade e ficção se equivaleriam, daí a improcedência em distingui-los. Ora, na minha dissertação de mestrado gastei algumas páginas para provar que na literatura brasileira contemporânea é muito comum uma hibridização do texto fruto da mescla justamente entre realidade e ficção. Seria essa indecidibilidade do leitor em assegurar seus limites uma das marcas da autoficção. Não quero me desdizer aqui, continuo convicto do que escrevi e defendi no mestrado, mas, a partir da fala do alemão, questiono a importância que isso tem.

Talvez mais do que afirmar que, por exemplo, em Nove noites, a construção do mito do escritor, de sua invenção de si, se dá na interseção de realidade e ficção, seja mais profícuo abstermo-nos dessa discussão e partirmos para um debate em torno da "vampirização" - para utilizar um termo de Flusser - do autor hoje. Em linhas bastante sintéticas, seria a transformação de uma arte exteriorizante em uma arte interiorizante, isto é, tentar ser imortal não nas obras, mas na memória dos outros. Como disse, ainda não tenho leitura suficiente de Flusser para aprofundar essa discussão no momento, mas fica aqui uma indicação de caminho a seguir.

Desconfio que meu projeto de doutorado sofrerá algumas modificações. Já vinha me mostrando insatisfeito com a primeira parte do projeto, que visava a discussão da autoficcionalização comum nos blogs. Parece ser um tanto óbvia a construção de um alter ego nos narradores blogueiros, por isso acho que posso abstrair essa questão e partir para uma discussão mais profunda, menos dejà vu.

***

Nota confessional: Comecei o curso do Mario Bruno, como ouvinte, hoje, me sentindo um penetra da festa alheia. A minha sorte mudou ao conhecer a Catarina, minha mais nova amiga, que está na mesma situação que eu - não somos mestrandos nem doutorandos, não temos vínculo com nenhuma instituição, mas não querermos sair da brincadeira.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Universidade: local do saber

Percebo a persistência e a insistência em se discutir a dicotomia entre a literatura como obra de arte e a literatura como componente da cultura de massa, interessada apenas na sua inserção mercadológica de modo a garantir, ao autor, dividendos lucrativos. Dessa forma, teríamos uma primeira disparidade, qual seja, o autor seria, no primeiro caso, um artista e, no segundo, um profissional. É possível, no entanto, falar em profissionalismo no terreno das artes? O artista é um profissional? Essa foi uma das questões levantadas no simpósio Pensamento teórico-crítico sobre o contemporâneo, na mesa Literatura, trabalho, pedagogia, com os professores Italo Moriconi, Ariadne Costa e Mario Cámara, durante as IX Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana.

Ao colocar essa questão em termos opositivos como mercado vs. academia, circulação vs. erudição, arte vs. consumo, busca-se pensar em que medida a academia estaria contribuindo para o entendimento da prática literária na contemporaneidade. Discute-se adequações de currículos e políticas de incentivo e adaptação de maneira a contemplar e aceitar a nova prática literária vigente, e cobra-se da academia que ela se posicione, preferencialmente de forma a interagir com o novo. Uma das críticas mais comuns feitas à academia diz respeito a um conservadorismo que a privaria de ler a atualidade. No debate que se seguiu à fala dos três professores na mesa citada, surge da plateia a interrogação: mas a academia deve conservar ou criar? E a resposta, prontamente, foi dada também pela plateia: As duas coisas.

A cobrança de que a academia deve acompanhar as novas e novíssimas criações literárias - e que em certa medida é uma cobrança mais do que justa - perde terreno, a meu ver, quando se esquece que ela deve também preservar o cânone. Algumas vezes tenho a impressão de que, em nome da "massa de trabalhadores do literário", que muitas vezes é sinônima de "massa de amadores", valendo-me de expressões do Italo Moriconi, ataca-se o beletrismo como forma de justificar e validar nossa produção contemporânea. É claro que devemos entender a literatura contemporânea sob a luz da crítica e da estética contemporâneas, afinal seria um enorme anacronismo estudarmos literatura hoje tendo como parâmetro, por exemplo, Machado de Assis. Isso, contudo, não deve servir como prerrogativa para "apagarmos" o bruxo do Cosme Velho, a academia, o beletrismo etc. Concordo com Flávio Carneiro quando ele diz que hoje vivemos uma "transgressão silenciosa", não precisamos mais atacar o cânone para outorgar à literatura atual reconhecimento, valor.

Para finalizar, cito novamente o Italo Moriconi, ao dizer que "o fetiche literário é um bem", "temos que aprender a gostar de Shakespeare", por que não? Um texto hoje que se queira parecer com a escrita do dramaturgo britânico ou com Machado de Assis, para dar um exemplo da nossa literatura, seria um texto ilegível, mas isso não deve invalidar nossas bibliotecas. A universidade ainda é sim um espaço destinado ao saber, e isso é muito bom! Que ela consiga conjugar a esse saber canônico as novas formas de escrita da atualidade, sejam os blogs, as autoficções, os microcontos, etc.

Fico por aqui, sem conseguir chegar perto da totalidade das questões discutidas no evento, que foi bastante rico, mas deixo o meu pitaco.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Roland Barthes: do estruturalismo ao pós-estruturalismo II

Quem leu o Diário de um eu sabe que a UFF desperta em mim sentimentos antagônicos. Por um lado, adoro a universidade onde me graduei e vivi momentos muitos bons da minha vida, por outro, ela me lembra, paradoxalmente, meus piores anos, gravados a ferro na pele. Por isso, sempre evitei ir à UFF, achava melhor não remexer no passado, deixar ele quieto, intocável. O seminário Roland Barthes: do estruturalismo ao pós-estruturalismo parece ter contribuído bastante para a superação desse impasse psicanalítico. De todas as falas hoje, perdi apenas a inaugural, do professor e coordenador do evento Latuf Isaias Mucci, devido ao meu atraso. As demais, conforme aconteceu no primeiro dia, foram todas muito boas, mas três me chamaram mais a atenção, não por serem melhores, mas por terem mais afinidade comigo.
A primeira foi a do Davi Andrade Pimentel, intitulada A fricção das linguagens na aula barthesiana. Na verdade, ela me agradou por eu ter ótimas lembranças da Aula de Barthes, rememorando minha preparação para o processo seletivo do mestrado, em 2007.
A segunda foi a da Luiza Faria Rodrigues, Imagens incidentais em Barthes. Ela trabalhou com o livro Incidentes. Em dado momento, Luiza diz que "o diário não é necessariamente confissão, é um memorial" e segue com mais algumas considerações sobre o diário. Confesso que fiquei na dúvida se a citação é dela ou do Barthes, mas o que importa é o interesse que eu tenho pelo tema, principalmente agora que me rendi aos diários virtuais. A busca pela identidade autoral é realmente importante, seja num blog, num romance ou num poema?
Luiz Gasparelli Júnior, seguindo nessa direção ao trabalhar com Roland Barthes por Roland Barthes, logo me chamou a atenção ao dizer que "Barthes é um grande mentiroso, mas um bom mentiroso" e complementa afirmando que "o segredo da autoficção é manter-se falando". Então sigamos e deixemos de enrolar.
Parece que a minha redenção uffiana se deu porque, depois de muitos anos - saí da UFF em 2000 -, me senti fazendo parte de alguma coisa ali. Isso não aconteceu na sala do evento, onde eu era só mais um, e sim no almoço. Minha intenção era almoçar na própria UFF, ou sozinho ou com o Léo, mas acabei me deixando levar para um restaurante em companhia dos meus novos colegas. Eu, um homem reservado, tímido, que não fala muito, que já havia sofrido muito em Ipanema ontem, me vi caminhando com uma pá de gente que eu mal conhecia em direção a um restaurante que eu não sabia onde era. Não sei como isso se deu, mas acabei sentado a uma mesa em companhia do Leonardo, da Jacqueline, da Heloísa e da Neli. E, apesar de mim, o almoço foi agradabilíssimo!
Consegui conversar, rir, falar sério e, pasmem, com naturalidade. Até com a turma que estava em outra mesa consegui estabelecer comunicação. Isso é quase um milagre. Até me inscrevi em mais uma disciplina do doutorado, que será oferecida em conjunto por professoras da UFF, da PUC e da UFRJ, lá na PUC. O curso é Visões da literatura a partir de Walter Benjamin. Memória, trauma, tradução, testemunho.
Semana que vem voltarei à UFF para outro evento, e parece que agora sem os fantasmas de outrora. Agradeço muito aos meus novos e talentosos amigos.