
Essa mais do que longa introdução serve para dizer que Flávio Carneiro, em seu recém-publicado O leitor fingido (Rocco, 2010), dá ao leitor o destaque merecido. Já que falei em autoficção acima, aproveito o ensejo para dizer que o retorno do autor na literatura contemporânea se dá, dentre outros motivos, pelo interesse desperto nos leitores sobre a figura autoral, não mais incógnita sob os caracteres da obra impressa. Essa curiosidade do público, no entanto, encontra contrapartida em Flávio Carneiro, interessado em saber "como será o meu leitor em carne e osso?" (p. 16). A curiosidade primeira do leitor pela pessoa que escreve agora se inverte: o escritor quer saber quem é seu leitor, mesmo porque existe um equilíbrio entre escrita e leitura. Desse modo, "é necessário recorrer sempre a uma e a outra dessas atividades, de tal modo que a composição escrita se revele um corpo construído pelas leituras efetuadas" (p. 17).
Nada mais natural, então, que o texto do escritor Flávio Carneiro apresente situações vividas e leituras feitas pelo leitor Flávio Carneiro, em uma inserção muito bem construída, na tessitura do texto crítico, do universo empírico-ficcional. Essa mistura de memória e pensamento crítico dá a O leitor fingido uma qualidade imprescindível: uma leitura agradável, prazerosa e ao mesmo tempo inteligente. Não se preocupe, Flávio, dificilmente seu livro obedecerá ao segundo mandamento da arte de não ler.
É tão claro o papel de destaque que o leitor assume para Flávio Carneiro que, em contrapartida à função autor proposta pelo francês Michel Foucault, ele propõe a função leitor, pois "o lugar daquele que lê é também um lugar de sujeito. E se esse lugar é agora um entrelugar, de onde estaria ele falando, que autoridade teria para dar significado a um texto?" (p. 43). Se não podemos dissociar escritor e leitor, se o escritor é um leitor que escreve, de acordo com definição proposta por Carneiro, criou-se uma lacuna no pensamento do francês, agora preenchida.
Pensando bem, por que será que o leitor, normalmente, não recebe a atenção devida? Ou será que sou eu que não lhe dava importância? Se pensarmos que um texto só é texto quando é lido, que antes disso ele é silêncio, nada, vazio, a importância do leitor já está aí - na significação dada ao texto. Enganado ou não, a leitura de O leitor fingido serviu para que eu refletisse não só na função leitor, mas principalmente que todo escritor é antes um leitor - afirmação óbvia, mas igualmente desapercebida, por vezes.
Durante a leitura, somos convidados a refletir que a leitura não é restrita ao universo alfabético. Lemos quadros, arquiteturas, pessoas, situações, etc. Imediatamente lembrei da minha graduação em Letras na UFF e de uma leitura que eu fizera com o objetivo de escrever uma resenha para o curso de português III. Para quem não estava interessado em aprender gramática, tínhamos como alternativa escrever resenhas de livros da coleção Princípios, da Ática. Ao ler Leitura sem palavras, da Lucrécia D'Aléssio Ferrara, o então jovem e arrogante sentiu-se compelido a dizer que leitura pressupunha letras, palavras, frases, livros enfim. Nada como leitura após leitura...
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