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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Universidade: local do saber

Percebo a persistência e a insistência em se discutir a dicotomia entre a literatura como obra de arte e a literatura como componente da cultura de massa, interessada apenas na sua inserção mercadológica de modo a garantir, ao autor, dividendos lucrativos. Dessa forma, teríamos uma primeira disparidade, qual seja, o autor seria, no primeiro caso, um artista e, no segundo, um profissional. É possível, no entanto, falar em profissionalismo no terreno das artes? O artista é um profissional? Essa foi uma das questões levantadas no simpósio Pensamento teórico-crítico sobre o contemporâneo, na mesa Literatura, trabalho, pedagogia, com os professores Italo Moriconi, Ariadne Costa e Mario Cámara, durante as IX Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana.

Ao colocar essa questão em termos opositivos como mercado vs. academia, circulação vs. erudição, arte vs. consumo, busca-se pensar em que medida a academia estaria contribuindo para o entendimento da prática literária na contemporaneidade. Discute-se adequações de currículos e políticas de incentivo e adaptação de maneira a contemplar e aceitar a nova prática literária vigente, e cobra-se da academia que ela se posicione, preferencialmente de forma a interagir com o novo. Uma das críticas mais comuns feitas à academia diz respeito a um conservadorismo que a privaria de ler a atualidade. No debate que se seguiu à fala dos três professores na mesa citada, surge da plateia a interrogação: mas a academia deve conservar ou criar? E a resposta, prontamente, foi dada também pela plateia: As duas coisas.

A cobrança de que a academia deve acompanhar as novas e novíssimas criações literárias - e que em certa medida é uma cobrança mais do que justa - perde terreno, a meu ver, quando se esquece que ela deve também preservar o cânone. Algumas vezes tenho a impressão de que, em nome da "massa de trabalhadores do literário", que muitas vezes é sinônima de "massa de amadores", valendo-me de expressões do Italo Moriconi, ataca-se o beletrismo como forma de justificar e validar nossa produção contemporânea. É claro que devemos entender a literatura contemporânea sob a luz da crítica e da estética contemporâneas, afinal seria um enorme anacronismo estudarmos literatura hoje tendo como parâmetro, por exemplo, Machado de Assis. Isso, contudo, não deve servir como prerrogativa para "apagarmos" o bruxo do Cosme Velho, a academia, o beletrismo etc. Concordo com Flávio Carneiro quando ele diz que hoje vivemos uma "transgressão silenciosa", não precisamos mais atacar o cânone para outorgar à literatura atual reconhecimento, valor.

Para finalizar, cito novamente o Italo Moriconi, ao dizer que "o fetiche literário é um bem", "temos que aprender a gostar de Shakespeare", por que não? Um texto hoje que se queira parecer com a escrita do dramaturgo britânico ou com Machado de Assis, para dar um exemplo da nossa literatura, seria um texto ilegível, mas isso não deve invalidar nossas bibliotecas. A universidade ainda é sim um espaço destinado ao saber, e isso é muito bom! Que ela consiga conjugar a esse saber canônico as novas formas de escrita da atualidade, sejam os blogs, as autoficções, os microcontos, etc.

Fico por aqui, sem conseguir chegar perto da totalidade das questões discutidas no evento, que foi bastante rico, mas deixo o meu pitaco.

2 comentários:

  1. Olá Bruno,

    sem dúvidas, gostaria de ter ido. Mas não deu. Boa análise! De modo bem reducionista, o que dimensiona a questão do profissionalismo é o ganha-pão! Daí surgem vários caminhos e possibilidades de análises. Mas o essencial é o ganha-pão. Antigamente, até uns 60 anos atrás o escritor brasileiro, principalmente o cânone (ou o agora canonizado), ele se encaixava ou era encaixado no estado, ou então havia sempre algo a subvencioná-lo, logo tinha um "q" de alguma forma de mecenato. Hoje, está em evidência um escritor diferente, o escritor produtor-produto, que vende algo e se vende junto também, escritor multi-tarefas.

    Um abraço

    abraços

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